Por: Diário Digital Castelo Branco
A Guarda inaugurou a 23 deste mês de outubro o seu Porto Seco, ao fim de quase vinte anos de persistência. Castelo Branco continua a anunciar. A diferença não é de geografia: é de método, de informação e de mensagem.
O Porto Seco da Guarda foi inaugurado hoje, 23 de outubro, com o ministro das Infraestruturas, o presidente da APDL e o presidente da CCDR Centro. São cerca de 4 milhões de euros, 750 m de linha para comboios de 750 m e capacidade para mais de 45 mil contentores de 20 pés por ano. Sérgio Costa resumiu-o numa frase: o mar chegou hoje à Guarda.
Cumprimento a Guarda, a sua Câmara e quem lá trabalhou durante quase duas décadas para este dia. Faço-o com mais convicção depois de ter estudado, passo a passo, a forma como o projeto foi construído.
E é por isso que, como cidadão de Castelo Branco, me faço uma pergunta incómoda: porque é que a Guarda inaugura e Castelo Branco ainda anuncia? Como se lê essa diferença, e o que pode mudá-la?
A Guarda trabalhou por acumulação: uma plataforma, depois fases, depois empresas, depois o porto seco. Castelo Branco começou tarde e de uma só vez, em 2026, com uma ambição maior e menos obra feita.
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Data |
Guarda |
Castelo Branco |
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23 out. 2026 |
Inauguração do Porto Seco (APDL, operação Yilport) |
Estudo «Atlântico, Centro-Ibérico Gateway» entregue à aicep Global Parques (19 out.) e à CCDR Centro |
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9 out. 2026 |
Apresentada como «caso de sucesso» no II Congresso da APPE |
Sem intervenção no programa nem nota pública sobre o congresso |
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set.–out. 2026 |
APDL e Câmara acompanham a obra no terreno |
Missão ao Brasil; protocolo com o Porto de Cabedelo para um porto seco |
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jul. 2026 |
4.ª fase da plataforma em comercialização |
Manifestação de interesse ao Governo numa Grande Área Empresarial; apresentação em Cáceres (TRIURBIR) |
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2025 |
Arranque da obra do Porto Seco, com fundos do Centro 2030; anúncio da 4.ª fase (36 lotes) |
Ago.–set.: José Henriques, farmacêutico, então candidato da IL à presidência da Câmara, propõe um terminal ferroviário de mercadorias, o «Porto Seco». 12 out.: é eleito vereador, o primeiro da IL no concelho, sem pelouro atribuído. O tema só volta a ter expressão pública em julho de 2026, já pela voz do presidente da Câmara |
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out. 2024 |
Inauguração da 3.ª fase: 44 lotes, 14 empresas, 198 empregos, com o ministro da Economia |
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2020–2021 |
O Governo defende o primeiro porto seco do país na Guarda; debate público sobre a localização |
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2006–2013 |
A plataforma nasce no Plano Portugal Logístico; um estudo académico de 2013 considera que ficou aquém dos objetivos |
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O quadro diz o essencial. A Guarda não teve sempre sucesso: em 2013 a sua plataforma era dada como pouco relevante. Mas não desistiu, e cada etapa serviu de argumento para a seguinte.
No II Congresso da APPE, a 9 e 10 de outubro, o ministro Manuel Castro Almeida anunciou seis ou sete novos parques industriais, preparados antes de os investidores chegarem. A Guarda subiu ao palco com uma mensagem pronta, «A Porta de Portugal para a Europa»: 1.011 ha classificados, plataforma de 96 ha ocupada, porto seco, parque TIR, comunidade de energia.
Castelo Branco não consta do programa nem das notícias. Não encontrei intervenção registada, nota de imprensa da Câmara ou peça regional que a refira. Fala-se, à margem, de uma articulação entre os dois municípios; nada foi escrito sobre isso.
O silêncio não é só municipal. A imprensa da Guarda reproduziu a mensagem da sua Câmara, como lhe compete. A de Castelo Branco não perguntou onde estava a nossa. E em julho o presidente da Câmara referiu, no Observador, uma iniciativa chamada «Interior Marca» e «conversações avançadas» com parceiros, sem que até hoje se saiba quem promove a primeira ou quem são os segundos.
Durante meses estudei, por iniciativa própria, uma plataforma logística e industrial na Feiteira, ligada à Linha da Beira Baixa, à A23 e ao aeródromo. A maior dificuldade não foi técnica: foi obter informação.
Quantos hectares estão de facto disponíveis? Os números públicos variam entre 250 ha, 496,5 ha e uma expansão até 3.000 ha. Que terrenos são municipais e quais exigem negociação? Que cargas produzem as empresas da região? Tive de trabalhar com dados de produção de fontes públicas, porque não os consegui confirmar junto de quem os detém. Pedi esses elementos à Câmara e às empresas; foi depois disso, em julho, que o Município passou a falar publicamente do porto seco e da Grande Área Empresarial. Registo-o como um sinal positivo, e espero que se lhe siga a partilha da informação de base.
Com o estudo concluído e a Guarda tão adiantada, não podia esperar mais. A 19 de outubro entreguei-o à aicep Global Parques e, logo depois, à CCDR Centro, a quem cabe apreciar a localização da Grande Área Empresarial do interior Centro. Pedi apenas uma reunião e a lista de elementos de que precisam, antes de qualquer decisão. Não pedi dinheiro nem compromisso.
O estudo propõe uma rede, não uma rival: a Guarda como porta para a Europa, por Vilar Formoso; a Feiteira como porta atlântica e da Extremadura, para Sines, Lisboa e Cáceres. O investimento estimado é de cerca de 82 M€, faseado e dependente da procura, que tem ainda de ser validada junto de cerca de 40 empresas.
Não é geografia nem sorte. Vejo quatro razões.
Nenhuma destas razões é inevitável. Todas dependem de escolhas.
Há um dado que a inauguração de hoje torna evidente. O operador do Porto Seco da Guarda é a Yilport, do grupo turco Yildirim. É o mesmo grupo que explora, em concessão, os terminais de contentores de Leixões e de Alcântara, em Lisboa, e terminais em Aveiro, Figueira da Foz e Setúbal. Desde março opera também o porto seco de Elvas.
Convém ser rigoroso: a Yilport não é dona dos portos, que continuam públicos. É concessionária dos terminais. Mas, na prática, a carga que entra e sai pelo Atlântico português passa em grande parte por ela, e agora também pelas suas portas no interior, a norte e a sul.
Castelo Branco tem tido como principal interlocutor o Porto de Lisboa. Ora, o grande terminal de contentores de Lisboa é da Yilport. É natural perguntar se o futuro porto seco da Feiteira passará também por ela.
Pode ser uma oportunidade. É um operador com rede, comboios regulares e interesse demonstrado no interior. Mas há uma questão que a região deve pôr antes de qualquer contrato: com Elvas e a Guarda já na mesma mão, a Feiteira seria um nó a mais dessa rede ou um ativo da região?
A resposta não está em excluir ninguém. Está nas condições. A infraestrutura deve ficar em mãos públicas ou regionais, com acesso aberto a vários operadores e portos, de Lisboa a Sines, e a sua exploração deve ser concessionada por concurso. É assim que o meu estudo a desenha: uma sociedade para a infraestrutura, outra para a operação. Quem dominar os portos secos do interior dominará a logística do interior, e essa escolha não deve ser feita por omissão.
Um cidadão que estuda um projeto destes não tem gabinete de imprensa, nem acesso a cadastros, nem lugar nos painéis. Entre setembro e outubro publiquei vários artigos sobre a rede da Beira Interior; foram lidos, mas não discutidos por quem decide. As ideias da sociedade civil só pesam quando alguém com poder as recebe, as testa e responde.
Proponho cinco passos, ao alcance de quem governa o território:
A Guarda mostrou hoje que a persistência ganha. Castelo Branco não precisa de a imitar nem de a combater. Precisa de decidir o que quer ser na rede, dizê-lo com clareza e fazê-lo a tempo.
João Manuel Próspero dos Santos Médico, consultor e promotor independente do estudo «Atlântico, Centro-Ibérico Gateway» · Castelo Branco
Observador — entrevista ao diretor-geral ibérico da Yilport · Yilport — terminais ibéricos · Yilport — terminal de Elvas