Por: João Manuel Próspero dos Santos
A Linha da Beira Baixa reabriu ao tráfego completo a 20 de Setembro. Todos os dias falamos dela para os passageiros. Hoje quero falar dela para quem vende. Se tem uma empresa em Castelo Branco, em Alcains, no Fundão, na Covilhã ou em Belmonte, e sobretudo se essa empresa vive do frio (lacticínios, fruta, preparados alimentares, ovos), esta linha pode, dentro de poucos anos, ser o caminho mais curto até Sines e até aos mercados da Europa.
O obstáculo que travou sempre esta ideia parecia simples: nenhuma empresa da região, sozinha, enche um comboio. E um comboio só se paga cheio. Mas a solução também é simples, e já foi usada aqui: chama-se comboio colector-distribuidor. Uma locomotiva percorre a linha entre Ródão e Belmonte e vai buscar, a cada estação, o bloco de vagões já carregado que a esperava. Sai de Ródão com a composição completa, pronta para Sines ou para a fronteira. No regresso faz o caminho inverso e entrega a cada nó o que ele importa. Não é uma promessa futurista: em 1994 já se faziam manobras destas na Covilhã e em Castelo Branco. A novidade é juntar os seis pontos de recolha da linha num único sistema, e pô-lo a andar com regularidade semanal.
Seis paragens, seis vocações
Cada um dos seis nós da linha tem hoje uma vocação de carga diferente, e é essa diversidade que, somada, enche o comboio.
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Nó |
O que pode dar |
Estado da infraestrutura |
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Vila Velha de Ródão |
Pasta de papel e tissue, com ramal próprio até à fábrica |
Ramal ferroviário activo, porto seco |
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Castelo Branco (carrega em Alcains) |
Lacticínios refrigerados, indústria local |
Sem função de carga na própria estação |
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Alcains/Feiteira |
Produtos alimentares embalados, ovos e ovoprodutos, compressores de frio |
Nó central da candidatura GAE, terminal em preparação |
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Fundão |
Cereja, frutos vermelhos, amêndoa, agroalimentar |
Terminal já construído, ligado à Zona Industrial |
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Covilhã–Tortosendo |
Preparados de fruta para exportação, têxteis e lanifícios |
Sem terminal; local identificado para o construir |
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Belmonte |
Agroalimentar local, pequenas empresas |
Via ampliada, sem equipamento de carga |
Nenhum destes nós, isolado, justifica um comboio. Juntos, já justificam vários por semana.
Uma palavra a mais para quem vive do frio
Quero deter-me nos empresários do frio, porque são quem tem mais a ganhar e menos costuma pensar no comboio como opção. A região já tem, hoje, uma base de negócio de frio maior do que parece: lacticínios refrigerados em Castelo Branco, produtos alimentares e ovoprodutos em Alcains, cereja e amêndoa no Fundão, preparados de fruta para exportação no Tortosendo. Há mesmo quem fabrique, na região, os próprios compressores de frio: o frio é aqui também indústria, não só logística.
O que muda com o comboio colector-distribuidor é isto: a carga refrigerada consolidada, a que hoje segue de camião até Lisboa ou Sines, passa a subir para um comboio em contentores reefer, com alimentação eléctrica garantida durante todo o trajecto e janelas de composição curtas para não quebrar a cadeia de frio. E há uma coincidência felizarda do outro lado da fronteira: a fruta do Jerte, em Cáceres, tem safra próxima mas desfasada da cereja da Cova da Beira. Isso significa contentores reefer partilhados ao longo de mais meses do ano, em vez de equipamento caro parado metade do tempo. Está já prevista, na Feiteira, uma área de armazém de frio multitemperatura, dos congelados ao ambiente controlado, exactamente para servir este tráfego.
Dois destinos, não um
O comboio colector não serve só o porto de Sines. Ródão fica também a meio caminho de outra porta, para norte: o eixo até à Guarda e a Vilar Formoso, que é a via ferroviária para Espanha e para a Europa continental. E como todos os nós ficam entre Ródão e a Guarda, o comboio para Vilar Formoso passa junto de todos eles e recolhe carga à passagem, sem precisar de varrimento suplementar.
Com a carga que já existe hoje na região, e sem contar pasta de papel nem Extremadura, ajusta-se pouco mais de um comboio completo por semana para Sines. Se se juntarem a pasta de Ródão, que segue em parte para a Europa, e a carga que a Extremadura pode trazer por estrada até Alcains, o número sobe para perto de quatro comboios por semana: dois e meio para Sines, quase dois para Vilar Formoso. E se a região atingir a maturidade que o plano de negócios prevê, chega-se a quase sete comboios por semana, ou seja, praticamente um por dia. É esse o horizonte que vale a pena mirar: não um comboio de vez em quando, mas um serviço regular que as empresas possam planear como planeiam uma rota de camiões.
O que está nas mãos dos empresários
Nada disto acontece sozinho, e é aqui que entram os empresários, não só como beneficiados, mas como parte decisiva da construção. O comboio só se justifica se houver carga comprometida, e a carga comprometida só aparece se as empresas disserem, desde já, quanto estão dispostas a pôr nele. Concretamente: quem exporta lacticínios, fruta, preparados alimentares ou qualquer carga que hoje segue de camião até Lisboa ou Sines deve perguntar-se qual seria o seu volume anual se o comboio existisse, e fazer chegar essa estimativa aos promotores do projecto. É esse tipo de compromisso, empresa a empresa, que transforma um estudo de engenharia num serviço real.
Castelo Branco, Alcains, Fundão, Covilhã, Tortosendo e Belmonte têm, pela primeira vez em décadas, uma linha aberta, um modelo de operação testado noutros tempos e um mercado, do outro lado da fronteira, pronto a partilhar equipamento e calendário. Falta a peça que só os empresários têm: a carga. Quem a tiver pronta primeiro, ganha o lugar cimeiro no comboio que está para nascer.