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Opinião 30 de setembro de 2026

O Pinhal tem carga. Falta-lhe uma porta.

Por: João Manuel Próspero dos Santos

A floresta é a maior riqueza do Pinhal e a carga mais pesada da região. O Atlântico, Centro-Ibérico Gateway pode levá-la mais longe, mais barato.

Quem vive na Sertã e no Pinhal conhece bem a sua força e a sua fragilidade. A força é a floresta: o pinheiro, a madeira, as serrações, as paletes, a biomassa e, cada vez mais, a resina. A fragilidade é a distância: o Pinhal fica longe da linha de caminho de ferro, longe dos portos, e depende da estrada para tudo. Este artigo é sobre uma forma de encurtar essa distância sem que a Sertã tenha de mudar de lugar.

O que é o Atlântico, Centro-Ibérico Gateway

É uma rede logística, industrial e energética da Beira Interior, apoiada na Linha da Beira Baixa — reaberta a 20 de setembro —, que junta a carga das empresas de vários concelhos em comboios completos, com destino a Sines, aos portos atlânticos e à Europa. A porta ferroviária mais próxima do Pinhal é Vila Velha de Ródão, onde se formam os comboios e onde já há um ramal industrial ativo e importação de biomassa.

A floresta é carga de comboio

Carga pesada, regular e previsível — madeira, paletes, pellets, biomassa, resina — é exatamente a carga para que a ferrovia existe. Levada de camião até ao litoral, paga caro cada quilómetro. Levada de camião até Ródão e daí de comboio, poupa estrada, combustível e emissões. O Grupo Palser, da Sertã, é o melhor exemplo do que já aqui se faz: começou em 1984 com a serração da Pinhoser, na Cumeada, e reúne hoje paletes e embalagem de madeira, recuperação de paletes, uma central térmica a biomassa florestal, pellets certificados e madeira termotratada, com unidades na Sertã e em Palmela. É a fileira florestal inteira — e a economia circular — num só grupo. Empresas assim são as que mais ganham com uma rede que as ligue ao comboio e aos portos.

E há a resina, que volta a ter valor. Portugal chegou a ser o segundo exportador mundial; hoje importa a maior parte do que transforma. Mas a procura de materiais naturais cresce, o PRR dirigiu 33 milhões de euros ao sector e, aqui ao lado, em Oleiros, testam-se desde 2023 novas técnicas de resinagem que podem render 300 a 400 euros por hectare e por ano sem prejudicar a madeira. Resinar é também manter gente na floresta no verão — a melhor prevenção de incêndios que existe.

O Pinhal na rede — potencial a validar com as empresas

O que o Pinhal traz

O que o Pinhal ganha

Madeira de pinho, serração, paletes e embalagem (Grupo Palser, Pinhoser)

Transporte ferroviário a partir de Ródão para Sines e para Espanha

Biomassa, sobrantes florestais e pellets certificados

Mercado regular para a limpeza da floresta; energia térmica na região

Resina a renascer (Oleiros, Sertã, Proença-a-Nova, Vila de Rei)

Destilação na região, em vez de exportar em bruto; química verde

Cortiça, mel, medronho, cogumelos, aromáticas

Frio, consolidação e exportação de produtos de nicho

Espaço e qualidade de vida

Acolhimento de quem venha trabalhar na nova indústria da região

 

O que muda com um armazém alfandegado à porta. Hoje, um contentor que sai do interior para fora da Europa faz o despacho e espera no porto. Com um depósito temporário alfandegado e um porto seco em rede, o despacho faz-se aqui: o contentor é verificado e selado junto de quem produz, segue sob controlo aduaneiro diretamente para o navio e não pára no cais. Na importação, a mercadoria chega ao interior ainda sob controlo aduaneiro e os direitos e o IVA só se pagam quando é libertada — o que alivia a tesouraria. Menos dias, menos taxas portuárias, e trabalho qualificado para despachantes e operadores locais. Para o Pinhal, propõe-se um ponto de consolidação e armazém alfandegado que reúna a carga dos vários concelhos antes de seguir para Ródão — porque a dispersão territorial só é um problema quando cada empresa está sozinha.

Sozinho ou em rede?

Duas escolhas, dois futuros

O Pinhal sozinho

O Pinhal em rede

Cada empresa faz a sua viagem de camião até ao litoral

Cargas juntas num ponto de consolidação e enviadas por comboio a partir de Ródão

A resina sai em bruto; o valor fica fora

A resina é destilada e valorizada na região

Floresta sem rendimento regular, mais vulnerável aos incêndios

Floresta com mercado para madeira, biomassa e resina, e com gente no terreno

Um território de passagem, cada vez com menos gente

Um território com função própria numa rede que liga o Atlântico à Extremadura

 

Castelo Branco não pode ser o aspirador

A Feiteira, em Castelo Branco, será o coração desta rede: o terminal intermodal, o porto seco, o aeródromo e a grande área empresarial. É uma peça básica — nenhum outro ponto da região reúne quinhentos hectares, ferrovia, autoestrada, aeródromo e energia — e a região precisa que ela avance. Mas é precisamente por ser tão importante que Castelo Branco não pode ser o aspirador da região. Os investimentos que ali se fizerem — terminal, porto seco, alfândega, água industrial, energia e a própria Grande Área Empresarial — têm de ser pensados como infraestruturas da região e não como património exclusivo de um município: com gestão partilhada entre os municípios e as Comunidades Intermunicipais, regras de acesso iguais para todos e ao serviço tanto das empresas do Pinhal como das de Castelo Branco. Uma Feiteira aberta à região fortalece o Pinhal; uma Feiteira fechada sobre si mesma não serviria ninguém, nem a própria Castelo Branco.

Este projeto não pede às empresas da Sertã que se mudem. Pede-lhes que se juntem. Uma rede bem desenhada distribui atividade, emprego e população por todos os concelhos — incluindo os que ficam longe da linha.

O desafio

Proponho aos concelhos do Pinhal — Sertã, Oleiros, Proença-a-Nova e Vila de Rei — que se apresentem juntos: que digam quanta madeira, quanta biomassa e quanta resina podem pôr em movimento, onde faz sentido o seu ponto de consolidação e que valor querem acrescentar antes de a carga partir. A floresta foi sempre a nossa riqueza. Está na hora de ser também a nossa porta para o mundo.

É agora.

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