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Opinião 12 de outubro de 2026

Fundão: a cereja não espera, a rede também não

Por: João Manuel Próspero dos Santos

O Fundão já tem aquilo que os outros ainda estão a projetar: um terminal ferroviário de mercadorias. Falta pô-lo a trabalhar.

O Fundão habituou-se a não esperar por ninguém. Fez da cereja uma marca, trouxe para o interior um centro de engenharia informática de uma multinacional quando poucos acreditavam nisso, mantém uma confeção que exporta toda a produção para dezenas de países, e tem ambição legítima de crescer na sua própria área empresarial. É precisamente por isso que escrevo para o Fundão: o que proponho não lhe tira nada. Dá-lhe uma porta para o mundo que hoje não tem.

O que é o Atlântico, Centro-Ibérico Gateway

É uma rede logística, industrial e energética ao longo da Linha da Beira Baixa — reaberta a 20 de setembro — que junta a carga dispersa das nossas empresas em comboios completos, com destino a Sines, aos portos atlânticos e à Europa, e traz no regresso o que a região importa. Tem o seu centro na Feiteira, em Castelo Branco, mas é uma rede com vários nós — Vila Velha de Ródão, Alcains, Fundão, Covilhã/Tortosendo, Belmonte — em que cada concelho carrega a sua própria carga, na sua própria estação.

O Fundão tem um trunfo que ninguém mais tem

O Fundão é o único concelho da linha com um terminal ferroviário de mercadorias já construído: cerca de 38.000 m², três vias e 1.375 metros de linha, a meio do eixo entre Ródão e a Guarda. É o ponto natural de consolidação do norte da Beira Baixa. Um terminal parado é um ativo perdido; um terminal integrado numa rede com comboios regulares é emprego e competitividade.

O Fundão na rede — estimativas do estudo

O que o Fundão traz

O que o Fundão ganha

Terminal ferroviário de mercadorias já construído

Serviço ferroviário regular para Sines e para a Europa, sem ter de o criar sozinho

Cereja, maçã e pêssego (Cooperativa Agrícola dos Fruticultores da Cova da Beira, Cerfundão, Unitom), amêndoa (Veracruz)

Cadeia de frio ligada ao comboio, contentores refrigerados partilhados e armazém alfandegado à porta

Confeção de gama alta para exportação (Twintex: mais de 400 trabalhadores, clientes em 26 países)

Despacho aduaneiro no Fundão e prazos de entrega mais curtos

Engenharia de software e inteligência artificial (Capgemini Engineering, ex-Altran)

Um ecossistema tecnológico: automóvel, eletrónica, drones e centros de dados na mesma rede

Cerca de 15% da exportação e 20% da importação regionais da rede

Um bloco próprio de vagões em cada comboio, carregado no Fundão

Zona industrial em expansão (Silvares)

Novas empresas atraídas por logística que já funciona

Posição central, a 110 km de Vilar Formoso

Acesso a Espanha e à Europa pelo corredor norte, e a Sines pelo sul

 

O Fundão não é só agricultura. A Twintex, fundada em 1979, emprega mais de 400 pessoas e exporta toda a sua produção de vestuário para marcas internacionais. O centro de engenharia da Capgemini Engineering (a antiga Altran) emprega centenas de engenheiros informáticos em inteligência artificial e sistemas ligados para o automóvel e os dispositivos médicos — exatamente as competências de que precisam os clusters de eletrónica, automóvel, drones e centros de dados que o Gateway quer atrair. O talento que já está no Fundão é um argumento para toda a rede, e a rede é uma razão para esse talento ficar.

Há ainda uma coincidência feliz. A cereja da Cova da Beira e a fruta do Vale do Jerte, em Espanha, têm safras próximas mas desfasadas. Em rede, os mesmos contentores refrigerados podem servir os dois lados da fronteira, alongando a época e baixando o custo de cada viagem. A cooperativa dos fruticultores e as centrais fruteiras do concelho, com as suas instalações de frio, são o ponto de partida natural dessa cadeia. Sozinho, nenhum dos lados consegue isso.

O que muda com um armazém alfandegado à porta. Hoje, um contentor que sai do interior para fora da Europa faz o despacho e espera no porto. Com um depósito temporário alfandegado e um porto seco em rede, o despacho faz-se aqui: o contentor é verificado e selado junto de quem produz, segue sob controlo aduaneiro diretamente para o navio e não pára no cais. Na importação, a mercadoria chega ao interior ainda sob controlo aduaneiro e os direitos e o IVA só se pagam quando é libertada — o que alivia a tesouraria. Menos dias, menos taxas portuárias, e trabalho qualificado para despachantes e operadores locais. Para quem exporta fruta, onde cada hora conta, esta diferença é decisiva.

Sozinho ou em rede?

Duas escolhas, dois futuros

Fundão sozinho

Fundão em rede

Carga insuficiente para um comboio regular; o terminal continua subutilizado

Blocos de vagões juntos aos de Ródão, Alcains e Covilhã: comboios completos e frequentes

Exportação por camião até ao litoral, com o custo e o tempo da estrada

Comboio para Sines e para a Europa; camião só para a distribuição local

Despacho aduaneiro no porto

Despacho no Fundão, em depósito alfandegado ligado ao porto seco

Área empresarial a competir, sozinha, com todo o país

Área empresarial com um argumento que poucos têm: ferrovia, alfândega e frio à porta

 

Castelo Branco não pode ser o aspirador

A Feiteira, em Castelo Branco, será o coração desta rede: o terminal intermodal, o porto seco, o aeródromo e a grande área empresarial. É uma peça básica — nenhum outro ponto da região reúne quinhentos hectares, ferrovia, autoestrada, aeródromo e energia — e a região precisa que ela avance. Mas é precisamente por ser tão importante que Castelo Branco não pode ser o aspirador da região. Os investimentos que ali se fizerem — terminal, porto seco, alfândega, água industrial, energia e a própria Grande Área Empresarial — têm de ser pensados como infraestruturas da região e não como património exclusivo de um município: com gestão partilhada entre os municípios e as Comunidades Intermunicipais, regras de acesso iguais para todos e ao serviço tanto das empresas do Fundão como das de Castelo Branco. Uma Feiteira aberta à região fortalece o Fundão; uma Feiteira fechada sobre si mesma não serviria ninguém, nem a própria Castelo Branco.

Numa rede assim, a empresa do Fundão fica no Fundão, carrega no Fundão e despacha no Fundão. E a própria medida do Governo que cria as Grandes Áreas Empresariais prevê, a par delas, uma rede municipal e intermunicipal de zonas de acolhimento empresarial. A ambição do Fundão de ter a sua área empresarial cabe aqui por inteiro — e sai reforçada.

O desafio

Proponho ao Fundão que seja o primeiro a dizer sim: que confirme com a Infraestruturas de Portugal o estado do seu terminal, que junte os seus exportadores à rede e que se sente, com os concelhos vizinhos, a desenhar as funções de cada um. Quem chegar primeiro define as regras. O Fundão tem o terminal, tem a marca e tem a ambição. Falta-lhe a rede. E a rede precisa do Fundão.

É agora.

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