Por: Diário Digital Castelo Branco
Investigadores do Instituto Politécnico de Castelo Branco e da Universidade do Minho identificaram um fungo inédito em bagas de medronheiro na região de Oleiros. A descoberta amplia o conhecimento sobre a diversidade ecológica
A coisa começou numa zona de mato e árvores típicas do interior, perto de Oleiros, em Castelo Branco. Segundo a informação a que o Diário Digital Castelo Branco teve acesso, uns investigadores a olhar para bagas de medronheiro – aquelas que dão a aguardente e que têm um sabor meio doce meio ácido – acabaram por topar uma espécie de fungo que nunca ninguém tinha descrito. Batizaram-na Banningia arbuti. O estudo saiu agora na International Journal of Systematic and Evolutionary Microbiology e, olhando bem, o achado não é pouca coisa: ajuda a perceber melhor o papel dos fungos nos ecossistemas e dá que pensar sobre o quanto ainda ignoramos.
A equipa juntou gente da Micoteca da Universidade do Minho (MUM) com malta da Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Castelo Branco. Nomes? João Trovão, Nelson Lima, Joana Domingues, Célia Soares, Carla Santos e Cristina Pintado. Andaram às voltas com análises morfológicas, moleculares e bioquímicas – daquelas que põem à prova a paciência de qualquer um – e conseguiram não só isolar o novo bicho como clarificar todo o género Banningia. Até aqui, deste género só se conhecia uma espécie no mundo inteiro. Agora passa a haver duas. E pertencem à família Saccotheciaceae, que, diga-se de passagem, é pouco estudada, quase um território por mapear.
O medronheiro (Arbutus unedo) é uma árvore mediterrânica com fruto avermelhado, rico em compostos bioativos, e que os locais usam para fazer uma aguardente tradicional. Pois foi nesse fruto que o fungo apareceu. “Esta descoberta demonstra a importância das coleções microbiológicas na preservação da biodiversidade”, sublinha Nelson Lima, diretor da MUM e presidente da Federação Mundial de Coleções de Culturas Microbianas. O mesmo investigador recebeu uma homenagem há poucas semanas na Conferência Internacional “Novas Tendências na Identificação Microbiana”, em Belo Horizonte, Brasil, pelo seu percurso e dedicação à coisa.
A nova espécie está depositada em Braga, na MUM, à disposição de quem quiser investigar ou mesmo de empresas que vejam nela alguma aplicação biotecnológica – não se sabe ainda se terá valor para a indústria, mas fica aberta a possibilidade. A Micoteca, que já leva três décadas de vida, tem certificação máxima, equipamentos de ponta e colaborações em áreas que vão do ambiente à saúde. É fiel depositária de microrganismos envolvidos em processos patenteados, reconhecimento dado pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual. Também é sede nacional da Infraestrutura Europeia de Investigação de Recursos Microbianos (MIRRI-PT), com apoio da UE, além de funcionar como centro de formação altamente especializada. Dá para encontrar lá milhares de fungos guardados, estudados, preservados – uma coleção que serve o desenvolvimento sustentável e, de certa forma, o bem-estar humano, embora isso nem sempre salte aos olhos.
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