Por: Diário Digital Castelo Branco
A “Ópera Graffiti”, de Luís Soldado com libreto de Rui Zink, estreia-se em 26 de setembro em Torres Vedras, e subirá ao palco do Centro Cultural Raiano (CCR), em Idanha-a-Nova, a 30 de outubro, pretendendo ser “algo de novo” ao cruzar ópera e “graffiti selvagem”, disse à Lusa o compositor.
A ópera nasceu do núcleo criativo que tem vindo a produzir cerca de “uma a duas óperas por ano”, como a mais recente “A Arte Suprema”, estreada em novembro do ano passado na mesma cidade do distrito de Lisboa.
Para além do compositor Luís Soldado, esse núcleo criativo conta com o escritor Rui Zink, autor dos libretos, a encenadora Linda Valadas e o maestro Rui Pinheiro, que assume a direção musical.
“Acho que devemos ser a companhia de ópera em Portugal que mais produz ópera original”, disse à agência Lusa Luís Soldado.
A ópera partiu dos “‘graffiti’ selvagens”, de quando Luís Soldado passeava pelos subúrbios de Lisboa. Rui Zink construiu uma história de amor, ligando as diferentes frases inscritas nas paredes, sobre amor, a importância da cultura, a necessidade de habitação, havendo até um poema de António Aleixo (1899-1949) e um verso do francês Léo Ferré (1916-1993).
“Não queremos simplesmente juntar ópera contemporânea ao ‘graffiti’, o que nós quisemos fazer não foi simplesmente sobrepor a ópera contemporânea com a música hip-hop que está mais associada ao ‘graffiti’. Nós quisemos que os dois se tocassem e dessa experimentação surgisse algo novo. E acho que de certa forma conseguimos, ou seja, se ouvirmos os dois elementos isolados não fazem sentido. O que faz sentido é quando os dois estão juntos nesta nova estética que de alguma forma criámos ao unir estes dois mundos, o hip hop associado ao ‘graffiti’ e a ópera contemporânea”, afirmou o compositor.
A obra cita o pequeno poema de António Aleixo que diz: “Eu não sei por que razão certos homens, / a meu ver, / quanto mais pequenos são / maiores querem parecer”. Luís Soldado explicou que este ‘graffiti’ está localizado numa parede frente ao Cemitério de Camarate, nos subúrbios de Lisboa, “e pareceu de facto muito indicado para estar em frente a um cemitério onde, ao fim e ao cabo, todos acabamos por ficar reduzidos ao mesmo final, não é?”.
A ópera inclui frases e poemas que foram pintados nas paredes e muros, mas também apenas uma palavra como “amor”, para a qual Soldado compôs.
“Interessou-me musicar ‘graffiti’ só com uma palavra, porque efetivamente deixa a música respirar mais. Um dos problemas que eu acho que tem afastado algum público da ópera contemporânea é a complexidade dos libretos e não tanto da música; ou seja, em algumas óperas nota-se que há um esforço em o compositor conseguir colocar todas as sílabas do texto da música, e às vezes já nem parece ópera, parece que é teatro musical, ou seja, parece que é a música que está ao serviço do texto”, afirmou.
“Quando estamos a fazer música para menos texto, a música acaba por ter mais liberdade e respira melhor. E, portanto, essa também foi uma lufada de ar fresco para mim como compositor, criar música para um texto forte, mas mais pequeno, permitiu respirar muito mais”, prosseguiu.
Esta é uma ópera “experimentalista”, afirmou Soldado, que referiu o trabalho que antecipa a sua estreia, “Uma Ópera Num Minuto”, programa que é apresentado na rádio Antena 2.
“Todas as terças-feiras às três da tarde, passamos uma ópera de apenas um minuto, referente a cada um dos ‘graffiti’ que vamos usar nesta obra, que são 12. Eu e a Linda Valada apresentamos esse pequeno programa onde nós falamos um pouco, ou do local onde o ‘graffiti’ foi recolhido ou mesmo da própria ideia que o ‘graffiti’ transmite. Isto acaba por ser também um processo inovador de dar a conhecer a obra ao público”, explicou.
No total são 16 programas, incluindo quatro episódios, cuja temática é noticiosa e os respetivos libretos são de autoria dos escritores Inês Pedrosa e Rui Zink: “Pareceu-nos um conceito muito interessante, não só explorar o meio radiofónico e misturar tudo, a ópera contemporânea, o ‘graffiti’ e a rádio, mas também como forma de apresentar a ópera ao público e deixar que o último programa seja na última semana da sua estreia”.
Sobre o ‘graffiti’ como inspiração operática, Soldado explicou: “E agora aqui o que parece é que nós também estamos a fazer parte do sistema e que queremos utilizar esse grito do ‘graffiti’ e queremos domesticá-lo também. Nós não queremos fazer isso. Nós queremos fazer exatamente o contrário. Nós queremos trazer esse grito e essa parte selvagem do ‘graffiti’ para a ópera contemporânea”.
“Ópera Graffiti” estreia-se no dia 26 de setembro, às 20:30, no Centro de Artes e Criatividade de Torres Vedras, e volta ao mesmo palco no dia seguinte, às 17:00, subindo, depois, a 30 de outubro, ao palco do Centro Cultural Raiano, em Idanha-a-Nova, no distrito de Castelo Branco.
No dia 15 de novembro, está em cena no Teatro Municipal Beatriz Costa, em Mafra, nos arredores de Lisboa, e, no dia 27 de novembro, em Vila Nova de Santo André, no distrito de Setúbal.
O elenco é constituído pelos cantores líricos Nuno de Araújo Pereira, Inês Simões e Ricardo Rebelo da Silva, acompanhados por três instrumentistas: Angélica Fonseca no violino, Sandra Pinto no fagote e Romeu Santos no contrabaixo, contando ainda com a bailarina Beatriz Pereira.
O ‘design’ de som está a cargo de Pedro Pascoal.