Idanha-a-Nova: Neta do marquês da Graciosa fala de si à revista Caras

Quando tinha 5 anos, o seu pai, que sofria de um transtorno obsessivo, matou-lhe a mãe e a seguir suicidou-se. Só aos 11 é que Maria Teresa “Ticas” Graciosa soube a verdade. Apesar deste trágico episódio e de todas as marcas que inevitavelmente deixou, quis partilhar a sua história de forma a chamar a atenção para a realidade das doenças mentais, na eventualidade de poder salvar outras crianças e famílias.

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  • Publicado: 2024-06-10 10:25
  • Por: Caras

Ticas nasceu em Idanha-a–Nova, em 1985. Neta do marquês da Graciosa, cresceu num palácio na Beira Litoral e, apesar da família ter feito “tabu” do que aconteceu com os seus pais, ela não quis fugir do seu passado, mas antes falar dele, homenageando assim os seus progenitores e abordando a problemática das doenças mentais.

Licenciada em Psicologia Social e das Organizações, trabalhou na área de recursos humanos de várias empresas, criou um blogue em 2014 que deu origem às empresas Casar com Graça, dedicada à organização de eventos, e Flores com Graça, de design floral, e é ainda autora do podcast ligado à área da saúde mental Páginas com Graça. Recentemente estreou-se como autora com o romance Nini, inspirado na morte dos pais, no qual partilha a história de uma criança que cresce num ambiente preconceituoso e violento e no esforço que esta faz para o compreender e superar ao longo da vida.

A apresentação do livro aconteceu no Hospital Júlio de Matos, em Lisboa, perante uma plateia composta por dezenas de amigos e familiares, entre os quais se encontravam o marido, Manuel Franco, com quem está casada há dez anos, e os dois filhos, Manuel Maria, de 8 anos, e Zé António, de 5. 

– Porquê a escolha do Hospital Júlio de Matos para apresentar este livro?

Ticas Graciosa – Quando assinei o contrato com a editora disse que poderíamos mexer e rever tudo, mas havia duas coisas que não podiam ser alteradas: o nome, Nini, que é uma homenagem à minha avó materna, e o local de lançamento, que seria aqui no Júlio de Matos. Porquê? Porque se o meu pai tivesse sobrevivido, ou estaria preso ou estaria na ala para os doentes psíquicos deste hospital. Acho que é uma forma de, nas entrelinhas, chamar a atenção de que as coisas acontecem, e acontecem em todos os meios sociais, e que quando acontecem, é aqui que vêm parar. Por isso, não poderia ser noutro sítio.

– Onde nasce o seu gosto pela escrita?

– Em pequena criei um blogue, que se chamava Um Dia Escrevo um Livro, onde escrevia coisas que sentia, e tinha sobretudo a ver com a vida e a morte. A escrita acabou por funcionar como uma terapia, foi uma maneira de deitar cá para fora muita coisa, mas também, em certa medida, de homenagear os meus pais. No meio de tantos silêncios, numa sociedade tão conservadora, a escrita era a minha maneira de os ter vivos em mim e, se calhar, nos outros que viviam em silêncio e que, através das minhas palavras e daquilo que eu escrevia, se sentiam também um bocadinho com eles.

– Porque ao exteriorizar, acabava por aliviar um pouco a carga negativa?

– Hoje em dia estamos todos muito sozinhos. As redes sociais não dão abraços, não dão consolo, não nos ouvem, não conversam, e tudo o que se partilhe para ajudar… Este livro nasce com o intuito de ajudar. Nos dias de hoje, dificilmente alguém está 100% bem. Todos nós temos os nossos gatilhos, e a Nini trabalha muitos gatilhos. Quem ler este livro sentirá empatia e chegará ao fim a pensar que, de facto, temos de escolher, nas coisas simples, se vamos ser leveza ou peso na vida dos outros. E isto acontece com um simples bom dia ou boa tarde, em coisas pequenas. Sempre senti necessidade de escrever para ajudar, para que o que aconteceu comigo, acontecesse menos vezes e alertar. Penso que a Nini é um alerta gigante.

– É. E aconteceu numa fase da minha vida mais madura em que consegui divertir-me a escrever o livro, a criar as personagens, e fazer com que qualquer pessoa que o leia comece a respeitar quem sofre com falta de saúde mental. O blogue e tudo o que fui fazendo foi um bocadinho para chegar aqui.

– Acredita que a sua experiência pessoal com doenças mentais, que foi explorando por causa da tragédia que bateu à porta da sua família, influenciou a sua opção por uma carreira na área da psicologia?

– Não. Quando tive Psicologia Clínica e me apercebi de tantas doenças e tão variáveis, cheguei à conclusão de que não iria ser capaz de ter esta responsabilidade. Era complexo demais. Por isso segui Psicologia Social e das Organizações, porque cresci também com uns avós que incutiram em mim, de forma muito natural, o sermos para os outros. Onde quer que estivéssemos, na comunidade onde estivéssemos inseridos, tínhamos de fazer coisas para melhorar a vida dos outros. E muitas vezes isso passa por percebermos no que é que os que estão à nossa volta são bons. Sabendo isso, podemos influenciá-los a serem ainda melhores. Identificar onde é que as pessoas são boas, potenciar o lado humano de cada um e as suas capacidades, faz parte da Psicologia Social e das Organizações.

– Ter sido mãe reacendeu algumas emoções relacionadas com a sua infância?

– Não, porque tive imensos colos, de tias, de amigas que são quase como irmãs. Claro que se sente a falta de uma mãe, mas acho que ficou tanto amor da minha mãe e do meu pai em mim, que esse amor depois vai surgindo na maneira como conto aos meus filhos a minha história. A maternidade obriga-nos quase a renascer, porque uma coisa sou eu a lidar com isto, outra coisa é os meus filhos lidarem com isso. E sou felicíssima, porque tenho dois miúdos com uma inteligência emocional fora de série, e que percebem que há feridas que deitam sangue. É fácil para mim, enquanto mãe, perceber o que é que tenho de fazer quando têm uma gripe e lhes dói a cabeça, mas é impossível para mim saber em que sítio da cabeça é que dói. E foi assim que lhes expliquei que há pessoas que têm tantas dores de cabeça dessas, que ficam com doenças mentais e, às vezes, num surto, fazem asneiras muito grandes. E por isso é que nós temos que ter sempre cuidado com os amigos que estão no recreio. Se estão tristes, devemos puxá-los até nós. E, nesse aspeto, a maternidade ainda me deu mais certezas de que o caminho não é o silêncio e que, mesmo as crianças, se souberem das coisas com verdade, com amor, têm o caminho muito mais facilitado.

– Que foi o que lhe faltou dos 5 aos 11 anos, a verdade. Fizeram-na acreditar numa história que, mais tarde, veio a descobrir ser falsa. Sabendo o que sabe hoje, faria tudo de forma diferente com os seus filhos, dizendo a verdade?

– Sim, foi o que fiz. Ou seja, quando percebi que eles já estavam aptos, senti que preferia que eles soubessem por mim de toda a história, do que esperar que alguém lhes contasse. Claro que tinha receio, mas quando percebi que estavam preparados, foi leve contar. As crianças têm um coração tão puro que, com amor e verdade, tudo aquilo foi assimilado de forma tranquila. Eu não tive essa sorte. Eram outras gerações. Hoje em dia fala-se, mas na minha vida houve muitos silêncios.

– Deixou de ser tabu falar de doenças mentais, mas ainda há um longo caminho a percorrer?

– Verdade. Fala-se muito, mas há muita coisa por se fazer. Vivemos todos muito nas nossas vidas, nas nossas dores, e dá muito trabalho perceber se o vizinho do lado ou o colega não está bem, e dispor do  nosso tempo para perceber o que é que podemos fazer porque, à partida, já sabemos que não vai ser só um café ou um copo. Se calhar, a maior parte das pessoas fala muito, mas depois, quando chega a altura de fazer, faz pouco. Isso também se vê nas consultas que estão disponíveis. Se alguém quiser ir a uma consulta de psiquiatria através do SNS, fica meses à espera e no privado paga 60 ou 100 euros por consulta. Não está ao alcance de toda a gente. E a saúde mental não se trata com uma sessão. Por isso é que, além de se falar, tem de se começar a fazer mais.

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