Mente Versus Espírito: a urgência de um despertar coletivo.

Hoje assisti a um funeral, e creio que falo por todos quando digo que é sempre um evento sensível.

  • Opinião
  • Publicado: 2021-07-20 00:00
  • Autor: Natacha Cabral

Todavia, e apesar da dor que se lhe está associado, uma paz estranha dentro de mim me invadia. Lágrimas me corriam pela face, enquanto um sorriso discreto parecia luzir de dentro para fora, como se algo me dissesse nas entrelinhas que “tudo está bem”.

Seja como for, assim que me ausentei, senti a necessidade de me sentar por uns tempos e refletir sobre a vida e a morte, sobre o nosso papel enquanto seres pensantes e capazes de sentir.

A imagem que eu levo destes momentos é a carga de emoções sentida e experienciada por todos. Não só sofrem os familiares, como todos os presentes, numa atitude de generosidade partilhada.

E isto levou-me a levantar algumas questões pertinentes: será a morte o fim da vida ou o começo? Não é a essência do ser Humano sentir? Não seremos Nós enganados por uma mente excessivamente ruidosa?

Vamos começar pelo princípio.

Não sei quanto a vós, mas não vejo a morte como um encerramento. Na nossa cultura a morte está associada a um sentimento de pesar, de fim. Mas uma criatura não pode nunca morrer de verdade. Se considerarmos que somos compostos por a tríade corpo-mente-espírito, então rapidamente entendemos que a morte do corpo físico não significa o fim de alguém, mas apenas o mergulho numa nova dimensão, um começar num outro mundo que transcende os nossos sentidos mais básicos. Assim, e ainda que a custo, todos nós teremos que deixar a realidade física mais cedo ou mais tarde, porém, algo de nós sempre fica. Algo que perdura no tempo. Algo que nos destinge de todo o resto.

Fazendo aqui um ponto de ligação à segunda questão, momentos como estes fazem-me crer que: 1) definitivamente ninguém é de ferro; 2) que estamos todos interligados numa dimensão espaço-temporal imensa e infinita.

Há muitos anos que a alta tecnologia nos tenta convencer que é possível dar vida a um robô e chamar-lhe de “Humano”. Há muitos anos que falham! E por muitos anos falharão.

Não querendo jamais lhes retirar o crédito pelos avanços e os esforços que lhes diz respeito, creio ser até insultuoso a tentativa de dar “vida” a algo que tem vida própria e que vai muito para além de uma caixa de ferramentas e computadores altamente evoluídos.

A causa primária da falha permanente resume-se a isto: o ser Humano é composto de uma coisa chamada de “emoções”, e isso não se cria – isso apenas é parte de nós e ocorre a um nível demasiado profundo para poder ser reproduzido.

Dizem os entendidos que o Homem deveria aprender a ignorar as emoções. Eu digo que aquele que não é consciente das mesmas nunca Será de verdade.

Fala-se muito de propósito nos dias de hoje, e na missão que cada um de nós tem enquanto habitante na terra. Complica-se tanto à volta deste tema que às tantas a confusão duplica, em vez de se dissipar.

Mas as coisas são simples. Na nossa essência mais básica, a missão do homem é Ser de verdade. É ser consciente de si mesmo e de tudo ao seu redor. É ser amor. É tornar-se desperto.

Mas é aqui, nesta aparente “simples” missão que tudo se pode complicar.

E é aqui que entra a terceira questão: afinal qual é o papel da mente no meio disto tudo?

Tal como referi em cima, somos compostos por uma tríade ao qual não adianta querer fugir. Quem vive só de corpo, vive de aparências; quem vive só de mente, torna-se a sombra do seu próprio egoísmo; e quem vive só de espírito, esquece-se de viver na plenitude.

O problema está que a sociedade assistiu a um rápido desenvolvimento a partir do século XIX, e parte desse rápido desenvolvimento teve como base uma desordem mental – isto é, um descontrolo dos pensamentos e nas ações consequentemente, mal aplicadas, basta lembrar das muitas guerras e dos holocaustos vividos nessa época um pouco por todo mundo, devido à loucura do desejo de poder, riqueza, competição territorial, religiosa e ideológica e o medo, ou da devastação sem fim do nossos recursos devido ao excesso de consumismo dos dias de hoje.

E é aqui que começa o dilema da mente: de um lado ela providencia-nos o intelecto necessário à evolução, mas do outro lado, não só nos poderá levar a um estado de loucura coletiva incontrolável, como também nos tende a turvar as emoções e, não tão poucas vezes, silenciá-las.

Mas não está tudo perdido. Anda há boas notícias no horizonte!

No entanto, receio bem que a única forma de contornarmos o rumo dos acontecimentos é promovendo o despertar coletivo, o que consiste na passagem de um estado de inconsciência para um estado consciente de Ser. E a única forma possível é através da libertação da nossa própria perceção do “Eu”, ou seja, do nosso ego.

Nesta fase, e antes de avançar, entendo ser fundamental a distinção da definição de mente, “Eu” e ego.

A mente é o lugar onde habitam os nossos pensamentos, crenças, memórias e valores. O “Eu”, é a perceção de nós próprios de acordo com esses pensares. O ego é a identificação com a forma, ou seja, com esses pensamentos, levando-nos a crer que nós Somos o que os pensamentos nos dizem, quase como uma ilusão de ótica que nos blinda de enxergar a própria vida no seu prisma mais abrangente.

Mas então porque é que esta questão de darmos ouvidos ao ego é à mente assim tão prejudicial?

Simples. Porque apesar dos egos diferirem de pessoa para pessoa, a estrutura é comum a todos: o ego alimenta-se da identificação, do apego e da separação, e quando vivemos única e exclusivamente sobre a capa de uma identidade criada pela nossa mente, tendemos a distorcer muitas coisas, o que acaba por se refletir em comportamentos egoístas, desprovidos de amor ou intencionalidade futura.

É importante que se compreenda o seguinte: quem vive seguindo as regras ditadas pelo ego, está num estado constante de conflito, uma vez que adora a competição. Está também preso a um estado de desarmonia, uma vez que adora criticar, e ainda, a um estado de dependência, uma vez que adora apegar-se a coisas exteriores, obrigando à procura incessante da satisfação material. E como se isso não fosse mau o suficiente, quanto mais dependentes e convencidos estamos das nossas próprias verdades, mais nos tornamos incapazes de ver a verdade dos outros, conferindo-nos um espírito de inflexibilidade que só tende a agravar com o passar dos anos.

Se virmos bem, estes estados acabam por caracterizar muito do que se passa à nossa volta. Estamos todos presos num estado conflituoso que mais parece não ter fim. Mas talvez assim seja mais fácil de entender o porquê de grande parte dos conflitos relacionais que nos assiste.

Buda dizia que “a vida não é tão séria quanto a minha mente me quer fazer crer”, e talvez por isto esteja mais do que na hora de nos questionarmos sobre nós próprios e sobre que tipo de pensamentos andamos a ter.

O pensamento é apenas uma pequeníssima parte do aspeto da consciência, contudo, tudo começa e acaba num pensamento, o que me faz pensar se não deveríamos pensar menos e sentir mais.

E é com esta ideia de passarmos a sentir mais que surge o conceito de despertar.

Despertar não é mais do que reconhecer este ego adormecido que nos comanda em jeito de piloto automático, assim como reconhecer a necessidade de desenvolver a nossa espiritualidade e conexão com o Universo. É quase como se houvesse um grito em uníssono para voltarmos às origens de tudo, à simplicidade da vida em si.

Mas cuidado. Não confundam por favor espiritualidade com religiosidade. Ser religioso não implica ser espiritual. O culto de ir à missa aos Domingos não faz de ninguém uma pessoa desperta espiritualmente. É necessário um trabalho rigoroso e uma dedicação devota, do mesmo modo que se vai ao ginásio com o intuito de praticar o culto do corpo. Daí que não é tão admirável que muitas pessoas “religiosas” tivessem estagnado a este nível, ou não fossem as guerras religiosas um dos pratos do menu com mais saída na nossa atualidade.

No fundo, vejo este “despertar” como uma forma de nos conectarmos à nossa verdade, à essência de todas as coisas e ao amor incondicional presente no Universo.

Desengane-se aquele que crê que pode caminhar sozinho, ou que é especial, ou ainda que se considere um ser à parte. As partes compõe um todo, e é neste todo que Todos vivemos, e quando formos capazes de aceitar esta ideia de coração cheio, talvez aí consigamos conquistar o Nosso lugar ao sol.

Compreendo que nem todos estejamos prontos para este despertar da consciência, pois querer, por si só, não basta. É preciso agir com fé. Mas também creio no seguinte: fomos criados à luz do amor, partimos desta terra com lágrimas de amor, logo a nossa missão deveria ser apenas e só, viver à luz do amor verdadeiro, pois amar nunca matou, muito pelo contrário. Amar dá vida. E o que somos Nós sem amor?

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