A História que se perdeu no tempo

Dava por mim há uns dias a ler uns escritos sobre a História da Humanidade e o estado atual do nosso planeta, e uma questão piscava na minha mente com uma força incontornável – parece haver uma necessidade da Era Moderna querer esquecer aqueles que foram os nossos antepassados, mas porquê?

  • Opinião
  • Publicado: 2021-07-12 00:00
  • Autor: Natacha Cabral

Já dizia Lavoisier que “nada se perde, tudo se transforma”, mas no que ao prisma evolucional diz respeito, creio termos, ou pelo menos termos manifestado a intenção de, perder a conexão aos nossos ancestrais.

Poderíamos eventualmente aprender com o passado, afinal esta é a ideia central desta frase. Se a um nível básico de consciência formos capazes de entender que tudo está interligado, então rapidamente discernimos que: 1) nada é obra do acaso; e 2) a essência da evolução jaz na cooperação e não na competição.

É incontestável que o nosso planeta passou por inúmeros marcos históricos desde que o primeiro sinal de vida ocorreu – desde a era dos “Homens das Cavernas”, passando pela conquista e exploração territorial, até aos genocídios e guerras que acabaram por dividir o mundo em continentes e países.

Mas o que é certo, é que na história hoje ministrada nas escolas e apresentada ao cidadão comum, pouco se fala da importância dos povos mais primitivos e dos seus contributos que faz de nós hoje, espécie dominante e tecnologicamente evoluída.

Parte-se desde já com um conceito errado de “primitivo”. É explicado aos alunos que a palavra em si, tem uma conotação de “antigo”, “extinguido”, “desnecessário”. Mas, será assim tão desnecessário quanto isso?

Quando perdemos o tempo atual a observar os antigos povos, aqueles que apelidamos de “selvagens” à luz da literatura atual, percebemos que algo perdura no tempo, pouco importando se passaram 5, 5 mil, ou 50 mil anos da sua existência. A ideia de sobrevivência em comunidade e em união é a base de todos eles, fosse em que parte do mundo fosse – desde os Inca instalados naquilo que para nós é hoje, a América do Sul, passando pelos Índios na América Central, até ao Cambojanos na região do sudoeste Asiático.

Não fosse a sede do poder e alguns idealismos ego-centrados que fizeram do domínio pela força um motivo suficientemente plausível para promover a extinção e a destruição massiva, talvez ainda hoje encontrássemos vestígios daqueles que muito nos tinham a ensinar.

O tempo passou, é certo. Mas muita coisa ficou enterrada.

Convenientemente ou não, quando ouvimos falar da História do mundo, pouco sabemos. Talvez o próprio cidadão do Peru não saiba de onde veio, ou qual a razão do idioma Espanhol ter dominado a América Central e do Sul. Ou porque razão o império Grego e Romano ter perecido quando tudo apontava para uma liderança sem igual.

Hoje, e enquanto aluna da disciplina de História, apenas fiquei a saber sobre os Reis de Portugal, sobre algumas da grandes guerras e da Revolução Industrial.

Mas, e o resto?

Quem fomos antes de hoje sermos? O que foi deixado para trás pelos grandes conquistadores e imperadores? O que se perdeu no tempo? Que lições foram esquecidas e culturas silenciadas?

Não somos só guerras nem computadores de alta performance. Há muito mais na simplicidade e na exclusividade das leis que regem este universo e que nos permitem cá estar por um tempo seguramente longo.

Creio que a História de hoje nos conta “histórias” mal contadas.

Vivemos convencidos que somos todos diferentes, que viemos de lugares distintos, que temos objetivos individuais e que é na competição e na vitória a todo custo, e sobre os outros, que nos haveremos de evidenciar e como tal, garantir a subsistência da espécie. A mim, cheira-me a tretas e a um bom punhado de areia atirado aos olhos de quem não quer ou não deverá ver.

Reza a História, e fortemente apoiado por inúmeros líderes da antiguidade que, os homens vieram para dominar o mundo, e tudo que nos foi dado é para usarmos a nosso bel-prazer. Será mesmo? Como pode uma espécie que se diz dominante exercer um domínio que acaba por matar e destruir sem limites? Como pode uma espécie dominante querer garantir a sobrevivência dum planeta se consome como se não houvesse mais amanhã? Como pode uma espécie dominante exercer poder que silencia, repreende e descrimina quem nele habita? Como pode uma espécie dominante se considerar tecnologicamente evoluída ao ponto de se achar no direito de decidir que espécies podem viver ou morrer? Assim como o jogo da roleta russa, feche-se os olhos e dispare-se à vontade, sem refletir sobre os danos colaterais ou sobre quem um dia nos concedeu o poder de estar aqui em primeiro lugar.

Façam-se bombas, desenvolvam-se armas nucleares, conceda-se o direito de matar e de extinguir, e de fazer de nós robôs – talvez seja aqui, que os povos primitivos se riam do seu próprio “legado”.

Era mesmo isto que eles queriam deixar?

Foi isto que retirámos da “história da antiguidade”?

Posso lá não ter vivido, nem experienciado muitas das suas dificuldades, nem tão pouco muitas das suas possibilidades, mas estou segura que se mergulharmos na sabedoria das comunidades hoje extintas, boas coisas haveremos de retirar no que à perspetiva de “viver” diz respeito, tais como: sermos todos e qualquer um, partes integrante do mundo, desde o mais pequeno microrganismo até às criaturas mais complexas e ainda, que tudo que existe é sagrado, significando que é de acesso a todos e não apenas a uns, sendo que a ordem natural deverá ser devidamente respeitada e cuidada.

Depois de tudo isto, não consigo deixar de pensar que haja talvez aqui um sentimento de vergonha associado, pois tanto se perdeu do pouco bom que outrora havia.

Seja como for, leia o que tiver de ler, investigue o que tiver de investigar, estou convencida que há uma necessidade da Era Moderna ir buscar ao baú conceitos que perduraram na antiguidade, como o conceito de cooperação. Entendo que a grande crise da Humidade que se faz sentir há uns anos largos, e um pouco por todo lado, assente na necessidade urgente de sermos mais por e pelos outros, assim como mais por e pelo planeta, pois não há lei escrita em lugar algum que nos diga e afirme que somos e sempre seremos, os únicos por cá, assim como os recursos estarem para sempre disponíveis.

Estou curiosa para saber por quanto tempo mais, irá durar a “Nossa História”...

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