Combate à Pandemia - A desorientação atual

Em Março de 2020 elaborámos um documento de divulgação restrita 

intentando ajudar os decisores políticos; mais tarde, publicámos algumas ideias sobre a melhor forma de combater a pandemia.

  • Opinião
  • Publicado: 2021-02-06 00:00
  • Autor: Martins Guerreiro

Hoje voltamos ao assunto porque consideramos decisivo que neste combate existam: 

 Uma clara linha estratégica; 

 Um órgão de direção nacional legítimo e evidente para todos; 

 Estruturas logísticas, de estudo e de informação devidamente articuladas com 

a direção; 

 Cadeias de responsabilidade bem definidas, sem ambiguidades, indo da 

direção nacional às linhas de combate e ás suas bases regionais e locais; 

 Estruturas de proximidade na base organizadas e articuladas para o combate; 

 Uma adequada política de informação e mobilização pública, feita por profissionais em estreita articulação com a direção de combate. 

Usámos a metáfora da guerra para evidenciar que este combate não poderia ser conduzido como uma normal ação do Governo em tempo de paz, ainda que em estado de emergência; era necessário criar novas estruturas no topo para um combate eficaz, bem como estabelecer linhas de responsabilidade sem ambiguidade até à frente do combate organizada e ligação nos dois sentidos entre o topo e a base. 

A primeira questão da maior importância – a linha estratégica - foi a definição e caracterização da linha da frente. Indicámos, sem qualquer dúvida, que a linha da frente era a sociedade em geral, ou seja, toda a população, sendo aí que se travava e trava o combate decisivo, que consistia e consiste em suster e eliminar a disseminação do vírus. Indicámos também que os hospitais e o SNS estavam na 

retaguarda, neste como noutros combates, ainda que fossem um elemento fundamental na luta contra o vírus e que por vezes também se encontrassem na 

linha da frente - também são elementos da sociedade. 

Não só o Poder confundiu as linhas da frente e da retaguarda, como não percebeu a importância fundamental da articulação do topo com a base que está na frente de combate, não estabelecendo linhas de autoridade e de responsabilidade evidentes. Como consequência, perdeu a capacidade de mobilização e a batalha da informação, deixou que se estabelecesse a confusão, a cacofonia, a banalização e a saturação dos números de “baixas” - infetados e mortos -que muitas vezes foram tratados na informação em termos desportivos como batendo sucessivos “recordes”. 

Se a sociedade não perceber e sentir que é ela própria que está na frente do combate não se mobiliza nem exerce “censura. social” sobre os que não seguem as 
indispensáveis regras de saúde e segurança. 
A frente do combate – a população em geral – ficou sem direção efetiva e concreta, em grande parte entregue a si própria, com orientações e informações vagas ou contraditórias, emitidas pelos diferentes atores do poder e da sociedade, por agentes da comunicação social ou por poderes sem legitimidade para isso. 
Dirigir uma frente de combate através da TV, onde as mensagens se atropelam e 
contradizem é estar condenado ao fracasso; nestas condições o apelo à responsabilidade individual tem um efeito muito reduzido, não mobiliza os cidadãos, por esta via não se ganha o combate. 
Sem organização ou ligação na base cada um atua por conta própria sob a influência de grupos e de diferentes cadeias de interesses cujos objectivos não são 
necessariamente servir a sociedade em geral nem o legítimo poder democrático, 
circunscrevem-se muitas vezes a meros interesses particulares. Com a linha da frente desorganizada e sem comando efetivo é evidente que as baixas continuarão a aumentar, irão sobrecarregar de tal modo a retaguarda – hospitais e SNS – que podem ou estão próximo de provocar a sua rutura, cujo efeito se refletirá ainda mais na desorganização da linha da frente. 
É verdade que este erro estratégico não foi apenas do Poder em Portugal isso aconteceu inicialmente um pouco por toda a Europa, ainda que com diferenças de grau e de escala na organização e execução das medidas fundamentais para o combate à pandemia. Em alguns casos foi corrigido logo a seguir, o que se traduziu 
em melhorias significativas dos indicadores das situações sanitárias. Cada país tem a 
sua experiência e organização para situações agudas de crise ou catástrofe nacional, a forma como a usa permite nalguns casos uma maior proximidade e ligação à população, aumentando o sentido de responsabilidade e disciplina na base, não foi o caso português.

O combate à pandemia ganha-se se soubermos combater em toda a sociedade 

mobilizando-a, cortando de forma sistemática e pró-activa as cadeias de transmissão, reduzindo e eliminando os diferentes focos, protegendo e se possível imunizando o maior número possível de combatentes – os cidadãos – sem nunca descurar o reforço e a melhoria das indispensáveis condições de segurança e trabalho de todos os profissionais da saúde. Há que recrutar, formar e preparar um grande número de “soldados” para as tarefas essenciais. 
Este combate também se trava na frente da economia, não se pode desprezar nem um instante a manutenção da Produção, sob pena de se ir ao encontro da «tempestade perfeita», com se diz. As actividades produtivas e as actividades que nelas convergem – por exemplo, os transportes - têm de ser adaptados à situação pandémica na sua forma de funcionar, exigindo planeamento aturado e monitorização permanente. Algumas actividades têm de ser redirecionadas para objectivos imediatos de combate à pandemia. É um erro decidir contrapondo a economia à pandemia. 
A confusão estratégica, a deficiente capacidade de organização e sobretudo de 
articulação entre os diferentes centros e órgãos de poder do Estado e da Sociedade e 
destes com a base, acrescido de interesses à solta, práticas e estratégias corporativistas, de visões ou interesses políticos míopes, conduziu-nos a uma situação de descrença na direção, de saturação e indiferença face às notícias. As hesitações e orientações erráticas criam indisciplina que se agrava com a tentativa repressiva. 
Uma situação que os inimigos da democracia aproveitam para crescer e 
corroer as instituições democráticas. Neste combate pela saúde publica o vírus da 
COVID não é o único inimigo; os vírus do neofascismo, do autoritarismo, da xenofobia são tão ou mais perigosos. Esses vírus estão a avançar em paralelo beneficiando da desorganização da confusão e do desalento na base. 
A adesão a uma orientação estratégica correta e a uma prática coerente por 
parte da população – que está na linha da frente – não se consegue pela repressão, 
mas sim pela conquista de cada um e pelo seu convencimento, isso é muito mais 
forte e incomparavelmente menos dispendioso que todas as formas repressivas que venham a ser usadas, a repressão enfraquece a luta geral e enfraquece a democracia.

Nas atuais condições, as forças policiais e de segurança são indispensáveis para 
ações positivas na base fortalecendo estruturas de proximidade, não se devem 
sobrecarregar acentuando a repressão. Não se mobilizam os cidadãos e a sociedade 
para o combate e para a democracia por via da repressão. Se a grande maioria não 
aderir conscientemente por convencimento, o combate perde-se e a democracia enfraquece. 
 A repressão também é necessária, isso é verdade, mas apenas em pequenas doses e sobre um número limitado de cidadãos. a mobilização tem de ser feita com ideias claras, promovendo os bons exemplos, felizmente há muitos na nossa sociedade, nos vários locais de luta - na frente e na retaguarda, no serviço nacional de saúde, nos serviços comunitários, nos serviços de segurança e defesa, na economia, nos serviços indispensáveis ao funcionamento da sociedade. 
Promover os maus exemplos - as notícias quase se limitam a isso - não assumir 
os erros e a responsabilidade são graves tiros nos pés. Há que corrigir a orientação, 
fortalecer a direção e a capacidade executiva, organizar e coordenar devidamente os recursos existentes, saber aplicá-los onde é prioritário e mais urgente. Os responsáveis de topo e de direção têm de saber assumir essa responsabilidade, 
esvaziando e isolando rapidamente dirigentes corporativos e pretensos iluminados e salvadores, à cacofonia e ao ruido existentes, há que sobrepor uma comunicação clara e objectiva e há que travar o avanço de forças neofascistas. 
A luta pela saúde publica e o reforço da democracia são elementos do mesmo 
combate por um país solidário, livre e democrático. Dizer que temos de mudar de 
comportamento está certo, mas não se esqueçam que o exemplo vem de cima: 
ORGANIZEM-SE MELHOR, mobilizem e articulem devidamente as capacidades 
existentes, deem orientações adequadas, criem um clima de confiança, verão que as 
coisas melhorarão na frente e na retaguarda do combate, formando uma barreira consistente ao vírus e de defesa da democracia. 
Existem forças, capacidades e conhecimento em Portugal capazes de combater com eficácia este vírus e o emergente neofascismo, reforçando a democracia e a cidadania. O povo português, apesar das dificuldades, bem dirigido é capaz de vencer esta luta que passa por todos. 

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