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Região 4 de fevereiro de 2026

Covilhã: Chuvas intensas levantam receios sobre água potável nas Minas da Panasqueira

Por: Diário Digital Castelo Branco

Na sequência dos fortes episódios de precipitação registados nos últimos dias, ocorreu na passada quinta-feira um novo colapso de uma estrutura de rejeitados mineiros nas Minas da Panasqueira, no concelho da Covilhã, com o arrastamento de grandes volumes de resíduos para a ribeira de Cebola, afluente do rio Zêzere. 

O incidente na freguesia de São Jorge da Beira volta a evidenciar a fragilidade de escombreiras e barragens de rejeitados que permanecem há décadas sem reabilitação ambiental adequada.

Em resposta ao sucedido, a Empresa Portuguesa das Águas Livres (EPAL), responsável pelo abastecimento de água à cidade de Lisboa, iniciou esta terça-feira, 4 de Janeiro, a recolha de amostras de água em vários pontos da região. Segundo informação a que o Diário Digital Castelo Branco teve acesso, o objetivo é avaliar eventuais impactos na qualidade da água destinada ao abastecimento público, incluindo a albufeira de Castelo de Bode, principal origem de água para a Área Metropolitana de Lisboa. A iniciativa reflete a preocupação com os efeitos cumulativos de acidentes repetidos numa bacia hidrográfica de importância nacional.

Este último incidente constitui já o terceiro colapso conhecido desta infraestrutura de rejeitados nas últimas décadas. As Minas da Panasqueira são exploradas pela Beralt Tin and Wolfram Portugal, subsidiária da empresa mineira canadiana Almonty Industries. Sendo uma das mais importantes fontes históricas de volfrâmio e estanho da Europa, a exploração gerou, ao longo de mais de um século de atividade, enormes volumes de resíduos mineiros, muitos deles ricos em sulfuretos e propensos à drenagem ácida. Vários depósitos, incluindo os do Cabeço do Pião, encontram-se em contacto direto ou muito próximo do rio Zêzere.

Estudos científicos têm documentado níveis elevados de arsénio e outros metais pesados nos solos, sedimentos e cursos de água associados aos rejeitados da Panasqueira, apontando para riscos ambientais persistentes e potenciais impactos na saúde humana. Apesar desse conhecimento, não foram implementadas soluções estruturais de remediação nem programas de reaproveitamento dos rejeitados, que continuam a conter quantidades relevantes de volfrâmio e outros materiais críticos.

Paralelamente, têm sido denunciadas descargas recorrentes de águas residuais não tratadas ou insuficientemente tratadas para a ribeira do Bodelhão durante os meses mais chuvosos, uma situação que se repete inverno após inverno e que contribui para a degradação contínua da qualidade da água na bacia do Zêzere. Observadores ambientais consideram que a sucessão de acidentes e incumprimentos revela uma tolerância prolongada por parte das autoridades.

O colapso mais recente afetou diretamente terrenos agrícolas adjacentes, incluindo olivais e vinhas, cujos proprietários exigem agora o apuramento de responsabilidades e compensações pelos danos sofridos. Os materiais libertados são potencialmente ácidos e podem conter concentrações elevadas de arsénio e outros elementos perigosos, levantando preocupações quanto à contaminação dos solos e à perda de produtividade a médio e longo prazo.

“O que se passa na Panasqueira não é compatível com os padrões de boas práticas definidos a nível europeu e internacional para a gestão de rejeitados mineiros”, afirmou Nik Völker, da iniciativa MiningWatch Portugal, em nota de imprensa. 

“A tolerância prolongada a infraestruturas instáveis e a descargas poluentes resulta em danos ambientais repetidos e em riscos crescentes para a agricultura e para recursos estratégicos como a água.” Reitera. 

A iniciativa alerta que, sem uma estratégia clara para estabilizar as escombreiras, eliminar descargas ilegais e remediar a contaminação histórica, novos colapsos serão inevitáveis. Defende ainda que a persistência desta situação compromete a confiança pública e evidencia falhas graves na fiscalização de passivos mineiros com impactos que se estendem muito para além da área da exploração.

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