Castelo Branco: Cine-Teatro Avenida encena “A Força do Hábito”

Se “A Força do Hábito” fosse um quadro de Magritte, teria inscrita a frase: “Isto não é um retrato de artistas”. Artistas relutantes, diga-se. 

  • Cultura
  • Publicado: 2022-01-08 22:59
  • Autor: Diário Digital Castelo Branco

Exilados, ambulantes – o público no escuro é reconhecido pelo faro apurado de Garibaldi: em cada cidade, um cheiro diferente. Os artistas odeiam-se entre si, não se entendem, embora precisem uns dos outros, e por isso mesmo. 

Para tocar em conjunto, para continuarem vivos. Continuando a ensaiar o “Quinteto da Truta”.

A vida de todos os mortais precisa de narrativas construídas pelos artistas. E de que se alimentam os artistas para sua sobrevivência, para além do cheiro do público? Doutras artes, doutras práticas que lhes exigem persistência em busca da perfeição. A par dos afectos esquinados pelas ovelhas tresmalhadas da família e das memórias extremas. Dos momentos inesquecíveis, entre a ocasião sublime e o acidente fatal.

Provas de vida a cada dia de ensaio, dentro e fora da “pista”. Sentidos alerta: um passo em falso, e é a morte do artista. Não  desistir do treino e do rigor: cabeças e corpos. Ferrara / fé rara. De terra em terra, de estação a estação, a viagem com esperança no infinitamente difícil, inatingível.

Bento Domingues: “Na utopia, vive a esperança de uma outra sociedade; na esperança, vive a utopia de um outro mundo”.

Diz Garibaldi: “A sociedade escorraçade si quem a ameaça”. “Não resta senão”, diz o mesmo Garibaldi, “entrar com o arco a tocarpela morte dentro”. 

Entretanto não se fala de produção nem de consumo. Tão só da alma, igual à peça de madeira que une as costas à frente dos instrumentos de corda e que faz ressoar o som. “Toda a palavra é uma invocação”, como no teatro!

“A arte que se faz nunca mais deixa em paz a cabeça”. Uma homenagem que Thomas Bernhard presta à gente do Teatro, do Circo e da Música, com verrina e ternura. Criaturas (in)vulgares em versão de Câmara. Nuno Carinhas. 

 

Ficha artística:

Autor: Thomas Bernhard

Tradução: Alberto Pimenta

Encenação: Nuno Carinhas

Cenografia, figurinos e cartaz: Luís Mouro

Desenho de luz: Fernando Sena

Sonoplastia: Hâmbar de Sousa

Interpretação: Fernando Landeira, Roberto Jácome, Sílvia Morais, Susana Gouveia e Tiago Moreira

Apoio musical: Maria Gomes e Rogério Peixinho

Operação de luz e som: Hâmbar de Sousa

Confecção de figurinos: Sofia Craveiro

Carpintaria: Pedro Melfe

Produção: Celina Gonçalves

Fotografia e Vídeo: Ovelha Eléctrica

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