Papa Francisco concretiza o seu programa pontifical no Caminho Sinodal Universal

No dizer do Papa Francisco, o objectivo do Caminho Sinodal é oferecer a todos os crentes a oportunidade de "se ouvirem uns aos outros e ao Espírito Santo". O lema do programa é "Para uma igreja sinodal (1): comunhão, participação e missão", os temas do sínodo são abertos.

  • Opinião
  • Publicado: 2021-09-12 07:54
  • Autor: António Justo

O Caminho Sinodal tem início em outubro de 2021 e tem três fases, terminando com a assembleia episcopal em outubro de 2023. As três fases são: uma a nível diocesana, que durará até abril de 2022, seguida de uma continental e de uma universal. "A Igreja de Deus é chamada em conjunto para um sínodo” e todos os crentes são chamados a participar no desenvolvimento da Igreja.

 

O plano original de Roma era convocar um sínodo de bispos, mas o Papa quis envolver não só os bispos, mas também leigos e igrejas locais, pelo que o empreendimento se torna numa viagem sinodal mundial com a duração de dois anos. Haverá muito trabalho a fazer a nível de paróquias, episcopados nacionais e regionais e a nível mundial.

 

A posição do Pontífice é clara e abrangente, não só para a sociedade religiosa como também para a sociedade política-civil; para Francisco “O verdadeiro poder é serviço” numa “Igreja pobre e para os pobres”, onde “O nome de Deus é Misericórdia”! Por isso anima, quem tem cargos de chefia, a só justificarem o seu poder social se este acontece em serviço dos outros; por isso recomenda: “sede pastores com o cheiro das ovelhas”. O papa quis iniciar com o seu pontificado um novo rumo para a história dentro e fora da Igreja e pretende uma maneira de ser igreja mais Jesuína!

Isto terá como consequência o distanciamento do exagero na ocupação e preocupação com a “ordem moral” para se centrar no seguimento-vivência de Jesus Cristo.

 

Francisco trouxe para a Igreja uma nova maneira de discurso social; este discurso possibilita novas formas de se estar em sociedade, ao dar maior espaço à expressão das minorias sociais que começam a ter mais influência no Poder e a condicionar também o abuso dele! A relação entre sociedade, conhecimento e discurso é cada vez mais estreita e determinante. O Método da controvérsia jesuítica é hoje muito importante na procura de soluções para o nosso tempo (2).

 

Com a ideia do caminho sinodal para clérigos e leigos o papa concretiza o seu plano de que o clero e todo o cristão se torne serviço à humanidade.  Todos terão de se definir e pensar primeiramente a partir de um nós, num sair de si mesmo para se encontrar na comunidade e assim se poder reencontrar verdadeiramente consigo mesmo (à imagem do protótipo Jesus Cristo).  Assim, no entender de Francisco, a igreja peregrina, mais que olhar para o caminho, deverá olhar para os que estão “à margem do caminho” e devolver-lhes a dignidade (aos “Cristos” abandonados)!

 

A Igreja encontra-se num empasse de ajustamento entre secularidade e religião e está envolvida num discurso entre o espírito do tempo (zeitgeist) de séculos anteriores e o espírito do tempo de hoje! Deste modo encontra-se perante a missão de redefinir também tarefas e funções entre leigos e clérigos.

 

Certamente, semelhante ao que aconteceu com a preparação do Vaticano II, que envolveu o mundo inteiro na sua preparação, a nível de clérigos e peritos, desta vez, a caminhada da igreja é de clérigos e de leigos num peregrinar intensivo de maneira a possibilitar muita coisa nova na Igreja e na sociedade, culminando no Sínodo dos bispos em 2023. Talvez o salto quântico a nível de clero se venha a manifestar num diaconado aberto não só a homens, mas também a mulheres, em igrejas regionais!

 

O caminho, de abertura aos sinais dos tempos, apontado pelo Concílio Vaticano II é programa dado a Revelação também se dar e acontecer na História. Deus continua a peregrinar na Igreja e no tempo através da pessoa e dos povos.

 

O movimento de desconstrução da cultura ocidental, querido pela política progressista, preocupa muitos “conservadores„ que temem que o mesmo fenómeno leve a uma correspondente desconstrução da tradição católica. É uma questão delicada num momento em que se pretende reinterpretar o passado e ultrapassar uma interpretação meramente linear da cultura/doutrina/história, de modo a surgirem da sua complexidade novas expressões da verdade.

 

Na Igreja tem-se, por vezes, observado “conservadores” e “progressistas” em disputa com pouca margem para a presença do amor divino que é inclusivo. Cristianismo é passado, presente e futuro por isso não seria cristão usar-se um tempo contra o outro.

 

O catolicismo é, prototipicamente, global e aberto à universalidade e, como tal, reconhece que as diferentes pessoas e povos se encontram em diferentes estados de consciência, sendo, por isso, difícil a tarefa de criar espaço de expressão geral para todos (tradicionalismos, modernismos e de teologias alternativas (3). Inferno, céu e virgindade não são mais considerados meios de educação…

 

As ondas do mar também avançam e recuam, doutro modo teríamos um mar podre! A diferença, por vezes discordante, pode transformar-se em foco de vida/desenvolvimento e como tal ser aceite desde que cada parte se mantenha no caminho do Mestre sem querer que o próprio caminho se torne no caminho dos outros. Jesus não deixou mandamento, deixou-se a si mesmo (Eu sou o caminho, a verdade e a vida!). Agora estamos na hora do Papa Francisco e este é o presente que prepara certamente a transição de forma harmónica porque no próximo conclave outros passarão o fogo do espírito a uma nova tocha (4)!

 

O objectivo é recuperar a confiança, introduzir reformas no clero, na moralidade sexual da igreja e no papel das mulheres na igreja. O Papa Francisco encorajou o movimento reformador alemão, mas também advertiu para os perigos de adaptação ao espírito do tempo.

 

O espírito de abertura só o será se também o for em relação à tradição dos antepassados. O trabalho do Papa Francisco tem sido exemplar num momento da História mundial bastante controverso devido às grandes mudanças sistémicas a nível geopolítico, de concorrências interculturais e do processo renovador em via na igreja católica (5).

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