Dentista de pacientes albicastrenses afirma que medicina dentária precisa de mudar

Trata-se de uma reflexão do médico dentista, António José de Sousa, que colabora com a médica dentista, Mércia Cabrera, numa clínica dentária em Castelo Branco, e que vai integrar a lista de Miguel Pavão nas eleições para a Ordem dos Médicos Dentistas (OMD)

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  • Publicado: 2020-05-28
  • Autor: Diário Digital Castelo Branco

Foram os últimos 19 anos dominados pela liderança do colega Orlando Monteiro da Silva à frente dos destinos da medicina dentária portuguesa.  
O seu estatuto de bastonário e a sua habilidade política levaram-no à representação da medicina dentária portuguesa ao mais alto nível internacional. Neste percurso sempre acompanhado por um núcleo duro de fiéis era esperado pelos mesmos a sua recandidatura a um último mandato; cedo foi criado um movimento que de apoio à mesma. Essa recandidatura seria mais uma vez a continuidade da mesma política, das mesmas pessoas, sem qualquer vislumbre de renovação. 
Quiseram as circunstâncias que o senhor bastonário não se recandidatasse, o futuro trará esses motivos.
Nesta altura todos nos sentimos órfãos, uma porque perderam o líder em que acreditaram durante anos e pelo qual estavam dispostos ao apoio a um último mandato, outros como eu por sentirem que esta seria a pior altura (pois as eleições estavam anunciadas para setembro) e um líder em saída perde peso político tão necessário nesta altura. 
A ambição por uma carreira política poderá não estar colocada de parte, mas não podemos esquecer a gestão rocambolesca dos destinos da Ordem e da medicina dentária nestes tempos da COVID-19.
O descontrolo da situação foi notório e transpareceram desentendimentos e falta de comunicação entre os órgãos e dirigentes da OMD, sendo o quase culminar desta história o anúncio errado da nova data das eleições e a surpresa dos seus apoiantes da sua não recandidatura.
Gostava ter ter tido o colega Orlando nesta batalha final. 
Quando pensávamos que mais nada poderia acontecer é feito o anúncio da reabertura dos consultórios num directo na televisão ao mesmo tempo que decorria uma reunião do Conselho Geral deixado mais uma vez surpresos todos os presentes. 

Para nós, médicos dentistas o anúncio oficial chegou umas horas mais tarde via e-mail. 
Anunciada a nova e definitiva data das eleições, o colega Ricardo Oliveira Pinto anuncia-se como a solução de continuidade prometendo “devolver a profissão aos médicos dentistas”. 
Os apoios de muitos que sempre estiveram nos últimos anos na OMD não se fizeram esperar. 
A equipa intergeracional parecia estar reunida. 
Após uns dias e depois de um golpe palaciano “a bem dos colegas e pela reunificação da classe” decide retirar a sua candidatura. 
Gostava de ter visto o Ricardo avançar e explicar como e quando iria devolver a profissão aos colegas, ele que se sentou 12 anos à mesma mesa que nos tirou muito do que a profissão necessita. 
Os mesmos que apoiavam a recandidatura do colega Orlando e agora do colega Ricardo ficaram mais uma vez órfãos. 
Do golpe palaciano surge a candidatura do colega Artur Lima, um ilustre desconhecido para os menos atentos, mas que já nos tinha brindado com um artigo de opinião na revista Saúde Oral e uma entrevista na Saúde + em nada abonatórios para os colegas. 
Homem da política e para a política, oriundo dos Açores e representante dos colegas ilhéus no Conselho Directivo, era um dos homens de mão do senhor bastonário; numa rápida pesquisa pela Wikipédia era até há uns dias anunciado como ex-dentista. 
Quis o destino que fosse a terceira escolha de um poder instituído há duas décadas. 
Se o colega Orlando se recadidatasse teria avançado na mesma? 
Anunciaria renovação com confiança? 
Ou mantinha-se no seu lugar como representante açoreano honrando a Ordem e o seu líder numa solução de continuidade?
Continuidade esta, que independentemente do actor principal parece estar assegurada. 
Perto de 50% dos quadros da sua lista transitam dos anteriores órgãos sociais; há ainda uma percentagem elevada de membros da lista que de uma forma ou de outra já faziam parte de grupos satélites, tais como Conselho Científico, grupos de Jovens Médicos Dentistas ou outros.  
A outra parte já orbitava em torno dos actuais corpos sociais, ou nas clínicas e faculdades onde muitos membros exercem a sua actividade. 
“Garantir o Futuro” com base no passado é a renovação que a medicina dentária não precisa. 

Honrar a Ordem é um lema subjacente a todos os médicos dentistas, tal como deve ser da parte de quem os dirige Honrar os que representam.
A medicina dentária precisa de mudar, “mudar com confiança” numa equipa totalmente nova “pelo futuro da profissão”.
Desde há muitos anos que não me revi na política que quem me representava; apoiei o colega Américo Afonso, mais tarde o colega Fernando Guerra, criei o movimento “Pensar Dentária” em 2012 com mais colegas à porta da Faculdade de Medicina Dentária da Universidade de Coimbra, ouvimos as inquietações dos colegas em reuniões que fizemos do Porto até Faro.
Não foi nossa intenção qualquer candidatura a cargos da Ordem, mas sim ouvir e dar voz a muitos que como nós estavam insatisfeitos. 
Os anos passam e há cerca de 4/3 anos a integração dos médicos dentistas no SNS levou a uma tomada de posição após uma reunião no Hotel Sheraton de Lisboa onde mais uma vez a nossa voz não foi ouvida. 
Mais uma vez Coimbra foi o centro de decisão e nascia a Plataforma “Fazer Dentária”. 
Foi a voz de muitos descontentes, aqueles que apenas dirigem a sua vida, as suas clínicas, as suas famílias no dia a dia. 
Ao longo destes anos as inquietações com o futuro acumularam-se e era chegado o momento de tentar a mudança. 
De a Norte a Sul, estendendo-se às ilhas e a muitos dos que foram obrigados a emigrar os médicos dentistas foram mostrando as suas preocupações, as suas dúvidas, as suas incertezas.  
As comunicações enviadas à Ordem e tantas vezes ignoradas, a não receptividade ao voto electrónico, o caos constantemente instalado com a legislação que sai em catadupa (muitas vezes desadequada), a precariedade no emprego, o flagelo dos mais jovens, a unilateralidade dos regimes convencionados, o descontrolo nos números clausus, a certeza de um futuro incerto trouxeram uma certeza, uma nova liderança era necessária. 

A liderança que não se faz apenas no líder, mas em toda a equipa.
Essa equipa e esse líder hoje existem, são a lista A encabeçada pelo candidato a Bastonário Miguel Pavão mais os 102 médicos dentistas clínicos como todos vós, que o acompanham.
Eu sou um desses médicos dentistas, tenho 52 anos, dois filhos, licencie-me em 1993 na primeira formatura do Instituto Superior de Ciências da Saúde Sul, sou especialista em cirurgia oral pela OMD e docente não doutorado na Egas Moniz. 
Sou aluno de doutoramento em Ciências Biomédicas na Egas Moniz, presto serviço de cirurgia e reabilitação oral de Castelo Branco até ao Algarve, assumo a direção clínica do Instituto Dentário do Alto das Amoreiras que abri em 1991 com mais 3 colegas. 
Já trabalhei como muitos de vocês em clínicas que me ficaram a dever, outras que por não reunirem condições não pude aceitar ou dar continuidade ao exercício da actividade, já vivi o despedimento por não concordar com a política da clínica, passei por situações de precariedade, de dificuldades também, passei por clínicas de franchising onde os donos não eram médicos dentistas, também atendo doentes segurados.
Não vim de uma família de médicos ou médicos dentistas, o meu pai faleceu com um tumor no dia em que mudei de engenheira para medicina dentária, sendo essa a última boa notícia que recebeu (que não pude dar pessoalmente), no ano após a minha licenciatura a minha mãe contraiu um tumor que a vitimou anos anos tarde, fui pai com dois anos de licenciatura, fui militar quase 10 anos e prestei serviço no Hospital Militar Principal 16 anos, trabalhei com reclusos 3 anos no EP do Linhó, voluntariei-me para uma missão da ONU e Angola no ano de 1997.
Sempre procurei dar a solução aos meus doentes, nunca aceitando o não ou o impossível como solução. 
Cedo escolhi a Implantologia e mais tarde um curso de mestrado pela Universidade de Krems em diagnóstico, terapêutica e reabilitação oral com especialização em implantologia, pelo meio fui o médico dentista da seleção nacional de futebol de 2001 a 2016.  

Hoje abraço com toda a convicção o projecto de mudança da lista A onde estão colegas como eu e como vocês, que vivem a realidade da medicina dentária todos os dias.
Acordamos cedo, chegamos tarde, umas vezes frustrados, outras contentes, muitas vezes cansados e sem tempo ou paciência para a família, para os amigos, para o nosso espaço, para os nossos animais, para as nossas coisas, mas também nos une a todos a necessidade de mudar. 
A partir de 27 de junho serei vosso representante pela zona sul no Conselho Geral da Ordem dos Médicos Dentistas, mas isso não chega, o vosso voto é necessário para que toda a estrutura mude, para que o nosso futuro possa ser mais certo, para que possamos mudar com confiança. 
Não deixes que mudem por ti. 
Dirijo-me com especial carinho aos mais novos, aqueles que anseiam e precisam da mudança que vos podemos dar.
Desde os tempos de estudante que tive um entendimento fácil com com as gerações que vinham atrás, fruto talvez da época em estive na associação de estudantes, por ser do primeiro curso e por ter dado a primeira aula com 24 anos “a miúdos” com 22.
Para vocês terei sempre as portas, ouvidos e olhos abertos como sempre aconteceu, continuarei a ser o “professor Tozé” sempre disponível para uma dúvida, uma dica, um apoio.
Mais que um programa eleitoral, mais do que as promessas, mais do que todas as dificuldades que vamos encontrar nas mudanças que nos propomos fazer, estão na equipa do Miguel Pavão colegas vossos de todas as idades, de todas as regiões do país; esses 103 colegas serão a vossa voz. 
Dia 27 de junho o voto de todos é importante.

24 Maio, 2020
Opinião

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