Por: Diario Digital Castelo Branco
O Rotary Club de Castelo Branco (RCCB), em homenagem ao seu fundador, vai criar a atribuição do prémio Amado Estriga. A iniciativa foi aprovada na 25ª reunião do Club.
O Rotary Club de Castelo Branco (RCCB), em homenagem ao seu fundador, vai criar a atribuição do prémio Amado Estriga. A iniciativa foi aprovada na 25ª reunião do Club.
O projeto foi anunciado por Adriano Martins, Presidente do RCCB, na reunião do Club onde estiveram presentes Carlos Maia, presidente do Instituto Politécnico, Luís Malta, diretor da Caixa Geral de Depósitos, Marina Morais, presidente do BNI Confiança e alguns empresários da região que se quiseram associar à apresentação do prémio.
Estiveram também presentes os Clubes Jovens Interact e Rotaract os quais comungam dos mesmos princípios do Rotary, expresso no Lema “Dar de Si sem pensar em Si”.
Breve perfil biográfico de Amado Ramos Estriga
por Jorge e Amado Estriga
Lisboa, Outubro de 2016
Nota prévia:
O texto que se segue não é um CV elaborado de acordo com as práticas académicas convencionais. É um breve perfil biográfico de uma pessoa que era tudo menos convencional, feito por outras duas pessoas que, relativamente a Amado Ramos Estriga, são tudo menos imparciais. Contudo, procurámos validar os factos e as datas junto de fontes credíveis e, inevitavelmente, ser fieis à memória que temos dos acontecimentos relevantes e às convicções que também temos, há muitos anos, sobre uma pessoa que conhecemos muito bem e que foi seminal na nossa formação. O nosso pai.
Irrequieto, polemista, provocador, cartoonista, caricaturista, anticomunista, astrólogo amador, dirigente associativo, leitor compulsivo, Rotário proactivo e engenheiro mecânico. Amado Ramos Estriga foi um homem que nunca gerou grandes consensos à sua volta. Austero nos princípios e implacável com a falta de transparência, sempre valorizou a fidelidade e a amizade de todos aqueles de quem gostava.
Impaciente perante as trivialidades e as convenções, cúmplice com a sensibilidade, com a dúvida e com a insegurança, sobretudo dos mais jovens para quem tinha sempre uma palavra de afecto e compreensão; uma palavra que dava a necessária confiança para avançar para um novo projecto ou para tomar uma decisão importante. De certo modo um humanista. Um homem eternamente apaixonado pela arte, pela cultura, pela gastronomia e pelas tertúlias. Sempre as tertúlias. Curiosa e contraditoriamente, para aqueles que o conheceram na intimidade mais recatada, também era um libertário no pensamento e um anarca na vida. Isto, aquilo e o seu contrário. Tudo na mesma pessoa e por vezes, num espaço muito curto de tempo. Uma marca característica de todos os homens que têm uma grande paixão, e respeito, pela vida.
Filho de Josefina Ramos Estriga e Amado Simões Estriga, nasceu a 18 de Novembro de 1929 em Castelo Branco, casou-se com Maria Ercília Proença de Almeida Estriga a 16 de Abril de 1955 e teve dois filhos: Amado Proença de Almeida Estriga (16 de Fevereiro de 1956) e Jorge Manuel Proença de Almeida Estriga (10 de Novembro de 1963).
Em 1947, depois de completar o liceu em Castelo Branco rumou a Charleroi, na Bélgica, para estudar engenheira textil. Foi o primeiro contacto com a Europa a reerguer-se de uma guerra devastadora. Estava tudo por fazer e as oportunidades não faltavam. Traduziu documentos para empresas, viajou, deu aulas de português e fez centenas de caricaturas que viriam a constar nos livros das licenciaturas, da universidade que frequentou. Acordou para a vida. Três anos depois volta para casa feito homem mas com o curso por acabar. Segue para Birmingham, desta feita para fazer um curso na Lucas Electrical, empresa de componentes para a indústria automóvel. Foi sol de pouca dura. Também aqui mostrou mais apetência pela boa vida do que pelos estudos.
Acabou por ser em Lisboa, no final dos anos 50, já casado e depois de ter sido pai pela primeira vez, que se tornou engenheiro mecânico pelo Instituto Industrial de Lisboa (IIL), actual Instituto Superior de Engenharia de Lisboa (ISEL).
Feito engenheiro regressa a Castelo Branco e começa a trabalhar com o pai na Auto-Mecânica da Beira. Uma metalo-mecânica, vocacionada quase em exclusivo para a construção de equipamentos industriais, e uma fundição, que foi a sua verdadeira paixão. Com a morte do pai, em 1964, assume a liderança da fábrica e lança-se na internacionalização da empresa, apostando na exportação. Começam as viagens pelo mundo e a presença constante nas feiras e congressos internacionais de fundição: Europa, Estados Unidos, Israel, Egipto, URSS, Japão e o Leste europeu.
Durante o ano de 1973 e os primeiros meses de 1974 consegue convencer os sócios, a separar as empresas do grupo em duas partes, com o objectivo de ficar sozinho ao comando do Auto-Mecânica da Beira. O grupo à data era composto, pela Auto-Mecânica da Beira, pelas garagens Avenida e S. Cristóvão, que detinham as representações da Mercedes Benz, da Fiat, da Alfa Romeo e da British Leyland. Um outro departamento acolhia a representação das máquinas de costura Oliva e algumas operações imobiliárias, entre outros negócios de menor dimensão.
Veio o 25 de Abril e a sua vida complicou-se. Administrar uma fábrica com duzentos funcionários nos anos que se seguiram à revolução, exigia uma postura firme, fria, insensível e calculista, atributos que manifestamente, Amado Ramos Estriga, não tinha. Ainda assim, passaram-se doze anos, entre assembleias gerais de trabalhadores, onde foi conseguindo aguentar os tempos loucos do PREC, numa primeira fase, e as dezenas de reuniões nos Ministérios do Terreiro do Paço, já nos anos oitenta, onde lutou por apoios que lhe permitiriam modernizar a fábrica para poder competir num mundo que começava a dar os primeiros passos na deslocalização das actividades industriais, até que, capitulou definitivamente em 1986, quando a empresa se tornou insolvente e passou para as mãos de um administrador judicial.
No mesmo ano, pela mão do amigo e colega de sempre, Jorge Ferreirinha, ruma ao Porto para liderar o departamento de relações internacionais da EUROFER, uma das maiores e mais prestigiadas fundições portuguesas. Menos de quatro anos depois é desafiado para co-liderar a ZOLLERN, uma fundição alemã para peças de alta precisão, então recém-implantada, também no Porto, de onde saíria para a reforma em 1993.
Paralelamente, teve uma contínua participação nos fóruns corporativos onde se defendia e divulgava a actividade. Foi co-fundador da Associação Portuguesa de Fundição (APF) em 1964 e seu presidente durante três mandatos (1970-72, 1979-81 e 1982-84), foi presidente do Comité des Associations Européennes de Fonderie (CAEF), em 1981 e integrou, como delegado do CAEF, o Comité International des Associations Techniques de Fonderie (CIATF), em 1982.
Amado Ramos Estriga era um homem que dividia a sua intensa actividade profissional, com a participação cívica e com as frequentes viagens.
Era fluente em cinco línguas, adorava conhecer pessoas e durante grandes períodos da sua vida viajou com uma frequência invejável. Sobretudo se atendermos à época de que estamos a falar, em que o avião era um meio de transporte genuinamente sexy, acessível a muito poucos e que, na Europa, nos Estados Unidos ou no Japão era possível ver espectáculos e exposições bem como aceder a bens, que não existiam, de todo, em Portugal. Esta circulação deu-lhe o “mundo” que não existia no ambiente provinciano que frequentava. O que lhe conferia uma clara vantagem junto dos seus amigos e conhecidos. Muitas histórias para contar e muita experiencia para partilhar. Vantagem essa que pôs ao serviço da comunidade onde sempre viveu, através da sua participação cívica e à sua maneira, política. São disso exemplos a militância no Rotary Clube de Castelo Branco, onde exerceu empenhadamente a sua veia humanista, o “O Hypólito comenta…”, um cartoon de crítica politica que saiu semanalmente na capa do jornal regional, o Beira Baixa, entre Novembro de 1971 e Junho de 1976 e o “Hypólito Fundidor”, uma declinação do anterior, que publicou entre 1973 e 2001, na revista da APF.
Finalmente o desenho. Sempre o desenho. Nem as toalhas de papel dos restaurantes escapavam. Amado Ramos Estriga estava permanentemente a desenhar. Desde o “fantástico”, a tinta-da-china, em formato A3, minuciosos e repletos de detalhes, que lhe consumiam noites e noites de Inverno, até às rápidas caricaturas entre amigos, passando pelas edições mais estruturadas de livros de fim de curso, tanto no Liceu Nun’Álvares como no Instituto Industrial de Lisboa. Nunca deu descanso aos lápis que povoavam os seus bolsos.
Faleceu súbita e inadvertidamente, acompanhado pela sua mulher de sempre, no dia 18 de Maio de 2003. Tinha setenta e três anos.
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